Revista LOJAS Papelaria - Edição 356

36 LOJAS PAPELARIA - ABRIL 2026 ARTIGO Menos horas, pleno emprego e automação: a nova geometria do trabalho no Brasil? Por Caio Camargo, especialista e palestrante em inovação e varejo O debate sobre o fim da escala 6x1 e a possível redução da jornada de 44 para 40 horas sema- nais tem sido tratado, em grande parte, como uma discussão trabalhista. Mas o que está em jogo é mais amplo. Estamos falando de produ- tividade, competitividade internacional, balança comercial, estrutura ocupacional e futuro do emprego. E há um dado que muda completamente o ce- nário: o Brasil vive o menor índice de desem- prego da história recente, em torno de 5,1-5,2% no início de 2026, próximo do chamado pleno emprego. Isso altera a equação. A pergunta central dei- xa de ser apenas “devemos trabalhar menos?” e passa a ser “como gerar mais valor por hora trabalhada em um país com escassez relativa de mão de obra?”. PRODUTIVIDADE É O EIXO DA DISCUSSÃO - E ELA EXIGE INTELIGÊNCIA, NÃO MAIS HORAS Competitividade global não é medida em horas totais trabalhadas. É medida em produtividade por hora e custo unitário do trabalho. Segundo dados da OIT e OECD, o Brasil produz cerca de 1/3 por hora do que Alemanha e Países Baixos, apesar de jornadas semelhantes ou maiores. Produtividade não significa trabalhar mais. Sig- nifica trabalhar de forma inteligente: com tecno- logia, processos otimizados e qualificação su- perior. Sem isso, reduzir jornada é receita para desastre competitivo. Se a jornada semanal for reduzida e o volume produzido se mantiver, houve ganho real de produtividade. Se as horas caírem e a eficiên- cia permanecer igual, o custo por unidade sobe. Em um país que já enfrenta logística cara, carga tributária complexa e custo de capital elevado, qualquer aumento estrutural de custo impacta exportações. No comércio internacional, dife- renças marginais definem margens e contratos. Países como Alemanha e Países Baixos pos- suem jornadas médias menores que a brasileira (cerca de 34-37h/semana), mas estão entre os mais produtivos do mundo. A diferença não está nas horas, está na eficiência sistêmica, tecno- logia embarcada, qualificação e organização do trabalho. Reduzir jornada sem qualificação é risco certo de perda de competitividade. O Brasil não pode se dar ao luxo de ser mais caro sem ser mais eficiente. O CASO DA “TAXA DAS BLUSINHAS” E O PESO DO BARATO Um episódio recente ajuda a entender como custo unitário altera mercados. A entrada massi- va de produtos de baixo valor via marketplaces internacionais criou um diferencial de preço re- levante frente à indústria nacional. O importado era significativamente mais barato ao consumi- dor final. A reação foi a criação de uma tribu- tação específica sobre compras internacionais de baixo valor, conhecida como “taxa das blu- sinhas”. Independentemente do mérito da medida, o episódio deixou um ponto claro: quando a di- ferença de preço é relevante, o comportamento do consumidor muda rapidamente. Preço reor- ganiza mercado. Se a redução da jornada elevar o custo da produção doméstica sem ganho pro- porcional de produtividade, o importado tende a ganhar ainda mais competitividade. Isso afeta indústria, varejo, emprego e balança comercial. Pleno emprego muda a dinâmica - mas sem qualificação, trava o país “Produtividade não significa trabalhar mais. Significa trabalhar de forma inteligente: com tecnologia, processos otimizados e qualificação superior. Sem isso, reduzir jornada é receita para desastre competitivo.” “Reduzir jornada sem qualificação é risco certo de perda de competitividade. O Brasil não pode se dar ao luxo de ser mais caro sem ser mais eficiente.”

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